Há um ano, a violonista Bia Nascimento lançava a música “Azur”. Naquele tempo, ter um EP era só uma vontade grande, que ela conta que “jogou para o universo”. Mas as coisas foram acontecendo de maneira que, agora, ela tem um “filho pandêmico”: cinco músicas instrumentais que são como um recorte de tudo o que aconteceu em sua vida de 2021 até o começo deste ano. “Brasa cor”, seu primeiro disco solo, será lançado nesta sexta-feira (30): um fechamento de um ciclo e, ao mesmo tempo, o começo de outro, como tudo na vida.
Bia teve a banda Matilda como seu ingresso fatal na música: já não tinha como voltar atrás depois disso. O quarteto, formado também por Juliana Stanzani, Amanda Martins e Fabrícia Valle, teve seu primeiro e único disco lançado em 2016. É um trabalho de canções populares. Bia, inclusive, assina algumas músicas. “Essa é a Bia de 20 e poucos anos”, afirma a compositora e violonista. Mas, nesse caminho, como uma intuição, ela pediu a Caetano Brasil que estudasse o choro junto com ela. “E tudo mudou.”
Mudou tanto que ela enfrentou um período de bloqueio e quase não conseguiu compor até 2021. Na verdade, ela mudava de fase: da canção, ia, logo depois, aprofundar-se na música instrumental a partir do choro. Frequentar rodas, estudar a presença e a ausência das mulheres nesse espaço – tudo isso é o que forma a Bia já de 30 anos, com o fim da Matilda e o ingresso em outros projetos. A mesma Bia que enfrentou a pandemia e, nesse período de mistos de sentimentos, conseguiu compor e decidiu que era hora de se mostrar de frente: ter um trabalho inteiramente seu.
“Foi um momento de dores e delícias, de assumir quem eu sou”, diz a musicista. Quando tinha insônia, via no violão a maneira de traduzir tudo o que estava sentindo, realmente as maravilhas e os momentos escuros: o violão-diário. Ela já tinha algumas músicas na gaveta e, para esse projeto, por lá elas continuaram. “Mas essas cinco que fiz nesse ano escolheram o EP”, brinca. Elas foram surgindo aos poucos, preenchendo as lacunas do trabalho e o que ela queria dizer com ele.
‘Coragem de me assumir’
Até então, antes da pandemia, imersa nas apresentações, não encontrava tempo para olhar para si mesma a partir de suas composições. Tudo foi se encaixando de uma forma única, como um retrato. “Porque eu era violonista que acompanhava as pessoas. Não tinha um trabalho próprio, só meu. Na pandemia, sem nada, eu pensei: ‘E agora, o que eu faço?’. Foi quando eu comecei a compor essas músicas instrumentais. Eu falo que elas escolheram o EP, mas eu abri os canais para essas músicas e para mostrar minha cara. O EP veio desse desejo, e da coragem de me assumir.”
A maneira íntima como Bia se apresenta em “Brasa cor” faz sentido porque o processo foi todo íntimo. A começar que ela quis acompanhar tudo. Por mais que não entendesse de mixagem e masterização, estava lá. Quando Leandro Scio foi gravar a bateria, e Fabrícia Valle, o pandeiro em uma das faixas, também acompanhou. As próprias gravações têm a intimidade revelada no som, por terem sido feitas em home studio, na casa do músico Guto Gomes – lugar que ela frequenta assiduamente. Ela ainda estudou de forma que pudesse, inclusive, fazer a pós-produção, ou seja: subir para as plataformas, fazer as estratégias de lançamento. “Eu queria viver isso, sentir esses momentos”, declara. E tudo isso enquanto participa do Choro Livre, trio formado por ela, Caetano Brasil e Chico Cabral, e lançava o EP feito junto com João Cordeiro, o Duo Nascente: todos projetos instrumentais que, mesmo quando não é de choro, ela brinca que tem um “braço” do gênero, porque não tem como dissociar mais.
Cada música representa um momento entre os altos e baixos da pandemia. “Teoria do chão” nasceu como um agradecimento à musicista carioca Luísa Lacerda por ter participado de “Azur”. “Saudade”, por outro lado, é uma homenagem à cantora Nêga Lucas, que faleceu no começo deste ano. Tudo faz apresentar Bia como a violonista de agora, tendo o violão, seu companheiro desde nova, como a grande estrela do trabalho.
Bia 2.0
A Bia lá de 2015, escrevendo canções, demorou para “virar a chave”, internamente, da música instrumental. Mas foi graças a isso, ao aceite de Caetano em a acompanhar no caminho do choro, e todas as suas decisões a partir de então, que Bia está nesse momento de ver um filho todo seu nascer. “Eu, por mais que já estivesse na música instrumental, não tinha virado essa chave internamente e pareceu que a fonte da composição tinha secado. Eu fui estudar e foi uma onda mesmo. A pandemia foi o momento de olhar para isso. E, por isso, fiz música. Claro que ‘Brasa cor’ tem a Bia de 2015, mas tudo mudou. As composições são mais maduras. É a Bia de agora e eu já quero ver a próxima Bia, que, espero, não demore tanto para sair”, brinca.
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