sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Consciência negra e consciência cristã

Comemorou-se nesta semana o dia da Consciência Negra, dia em que todos somos convidados a refletir sobre a negritude num país que, durante 350 anos, conviveu com o escravismo legalizado dessa população. Essa realidade desumana não pode ser esquecida nem minimizada, se desejamos ter uma convivência social fundada na justiça e na solidariedade, como manda o Evangelho e não se cansa de recordar o Papa Francisco. Por isso, esta coluna onde se expressa um segmento do laicato católico local, não poderia deixar de abordar o tema para avaliar a contribuição das Igrejas cristãs – particularmente a Igreja Católica – para superar essa cultura de raiz escravista.

Entre os muitos males que provocou, o escravismo criou uma cultura desumana onde dois preconceitos polarizam o comportamento social: o racismo e o supremacismo branco. O primeiro tem sido desmascarado e combatido pela corajosa atitude do movimento negro, que vem gradativamente ganhando apoio no conjunto da sociedade, de modo especial nos setores intelectuais e na grande mídia.

Também a Igreja Católica tem contribuído para o combate ao racismo: desde a Campanha da Fraternidade de 1988, cujo lema era “Ouvi o Clamor deste Povo”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem incentivado as Pastorais voltadas para a população negra e para lutar contra o racismo. É preciso reconhecer que nem todas as dioceses brasileiras dão a mesma prioridade a essa Pastoral social, mas o fato de ela ser promovida pela CNBB é um sinal de sua atenção às vítimas do racismo.

Mais grave é a persistência do supremacismo branco, do qual pouco ou nada se fala em nosso país. A cultura brasileira incorporou a ideologia da democracia racial, como se relações sexuais provocassem automaticamente a igualdade social entre os parceiros. Essa ideologia esconde a supremacia branca e a protege contra todo questionamento. Mesmo quando os dados estatísticos evidenciam as disparidades entre pretos, pardos e brancos, a ideologia da democracia racial atribui essas disparidades ao mérito individual, à qualidade moral da família ou a outros fatores, dificultando a promoção de políticas que saldem a dívida histórica contraída pela sociedade escravocrata.

Aqui reside a interpelação da realidade à consciência cristã: é hora de rever o papel da Igreja na manutenção do supremacismo. Como toda ideologia, também ele atua de forma sub-reptícia, como quando a Igreja proclama a igualdade de todos os humanos como filhos e filhas de Deus, sem levar em consideração que suas diferenças são culturalmente transformadas em superioridade social para justificar a dominação. É nossa missão denunciar, profeticamente, a dominação baseada em qualquer superioridade – étnica, de gênero, de nascimento ou outra – para que seja estabelecida a igualdade de todas as pessoas, respeitando seu direito à diferença. Só assim superaremos definitivamente a cultura oriunda do escravismo e forjaremos uma cultura humanista e democrática.

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